Presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais do Estado do Espírito Santo – Fetaes, Júlio Cezar Mendel está otimista com os novos rumos políticos do Governo Federal em relação à Agricultura Familiar. A possível criação do Ministério da Agricultura Familiar e Alimento Saudável é um dos motivos.
Outra conquista a se comemorar é a criação de uma Subsecretaria de Agricultura Familiar na estrutura da Secretaria Estadual de Agricultura – Seag. Júlio assumiu o terceiro mandato consecutivo na Fetaes em abril do ano passado. Ele conversou com nossa reportagem e explanou sobre a situação dos agricultores familiares no Espírito Santo. Como a maior parte dos municípios capixabas tem como base econômica a produção agrícola, ele defende um forte investimento no setor. Entre retrocessos causados pelas políticas federais dos últimos quatro anos, Júlio está otimista com o retorno dos investimentos e políticas públicas voltadas para os trabalhadores rurais.
Qual é o perfil dos agricultores familiares no Espírito Santo?
Podemos citar alguns aspectos interessantes nesse sentido. O primeiro deles é o protagonismo das mulheres (em quantidade e em qualidade produtiva). Muitas mulheres passaram a ter um papel de destaque no seio familiar, tomando decisões e coordenando grupos produtivos. Temos o desafio de minimizar o êxodo rural, muitos jovens ainda estão deixando o campo rumo às cidades, em busca de oportunidades. O campo está envelhecido, muitos idosos e idosas, o que compromete a sucessão familiar.
O que se pode destacar como conquistas dos agricultores familiares nos últimos anos no Estado?
Não podemos falar em conquistas propriamente ditas, foi um período de muita resiliência e resistência. Não temos motivos para comemorar. Temos sim muito o que fazer para recuperar o tempo perdido. É necessário se reorganizar de forma a ter nos próximos quatro anos as políticas públicas e as conquistas necessárias para a promoção do desenvolvimento social e econômico no campo.
Qual a real situação do agricultor familiar no Estado e no Brasil, atualmente?
Nossos agricultores e agricultoras familiares capixabas estão passando por muitas dificuldades, pois estamos vindo de quatro anos de um Governo Federal que em nada investiu no setor. Pelo contrário, acabou com ministérios e autarquias criadas especialmente para dar suporte a Agricultura Familiar, como o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, por exemplo. Os programas existentes, como o PAA e o PNAE ficaram à revelia, sem estrutura e financiamentos adequados. Para além disso, foram mais de dois anos de pandemia, o que impactou o setor produtivo, principalmente na comercialização dos produtos. É necessário investir de forma a capitalizar todas as perdas dos últimos anos, e isso se faz com a criação de políticas públicas que realmente cheguem até o homem e a mulher do campo.
O que falta para o setor evoluir?
Uma série de coisas: oportunidades iguais para homens e mulheres; investimento para que a juventude continue no campo com condições de inovação produtiva; investimento em infraestrutura (estradas, telefonia, internet), além de um maior investimento em políticas públicas de moradia, lazer. Também podemos citar uma maior atenção ao Plano Safra e programas de alimentação orgânica. Temos muito o que fazer, mas certos de que o governo eleito e empossado tem total condições para oferecer essas melhorias ao agricultor familiar. A Fetaes estará ao lado dos parceiros colaborando em tudo o que for necessário para que essas políticas se efetivem.
Quanto à criação do Ministério da Agricultura Familiar e Alimento Saudável. De que forma esse Ministério pode impactar na vida do agricultor?
Para além do retorno do MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário, a criação de um ministério especifico para a Agricultura Familiar seria histórico e relevante para o nosso País. De tudo o que é produzido no Brasil, 70% vem da Agricultura Familiar. Um ministério especifico daria condições de potencializar – social e economicamente – ainda mais o setor. O desenvolvimento da Agricultura Familiar passa diretamente na criação de políticas e programas públicos que deem condições ao agricultor de uma melhoria nas condições de vida familiar e no trabalho. Torcemos para que esse ministério seja criado e, junto a ele, a volta de programas importantes e a criação de novas políticas e de um maior investimento.
Está em curso a criação de uma Subsecretaria de Agricultura Familiar no Estado. O que isso pode representar de avanço para os produtores?
Significa um avanço dos mais significativos! Teremos um espaço rico de debates e implementação de políticas específicas para a Agricultura Familiar, algo nunca visto em nossos Estado. Todos os programas e políticas do Governo Federal, alinhadas às iniciativas estaduais, seriam melhor trabalhadas e desenvolvidas numa estrutura política operacional especifica para o setor. Seria ainda um espaço de escuta direta com o trabalhador, nos auxiliando ainda mais na elaboração de políticas e programas. Estamos confiantes e animados com essa possibilidade, e vemos com bons olhos a criação da Subsecretaria de Agricultura Familiar no Espírito Santo.
Qual a relação entre Agricultura Familiar e o desenvolvimento do Estado?
A Agricultura Familiar é um setor de muita relevância para o desenvolvimento do Estado. O Espírito Santo possui a maioria de seus municípios com base econômica agrícola. De norte a sul do Estado, temos na agricultura uma base sólida de desenvolvimento social, econômico e cultural. As aposentadorias e outros benefícios previdenciários rurais, em muitos municípios, são a principal fonte de recursos/renda injetando dinheiro no comércio local e fazendo a economia girar. Investir na Agricultura Familiar significa investir na municipalidade capixaba, trazendo ainda mais desenvolvimento para o nosso Estado.
A produção orgânica é uma tendência sem volta? O que fazer para aumentar essa produção?
Sim, é uma tendência sem volta. A produção de alimentos saudáveis, que se dá por meio dos produtos orgânicos, é um assunto de saúde pública. Investir nos orgânicos significa trabalhar para os povos do campo e das cidades terem mais saúde, o que impacta diretamente nas filas dos hospitais, na ocupação de leitos, dentre outros. Para que tenhamos uma produção orgânica em longa escala de produção e comercialização, é necessário investir cada vez mais no associativismo, no cooperativismo e em assistência técnica. É preciso orientar os produtores sobre a produção orgânica e a população sobre a importância de consumir esses alimentos. Fazer com que esses alimentos sejam mais acessíveis é um grande desafio, e isso só será possível se cada vez mais agricultores investirem nesse segmento produtivo.
A Fetaes oferece algum tipo de orientação com preocupações ambientais aos produtores familiares?
A Fetaes, juntamente com seus 60 sindicatos filiados, busca sempre levar até o agricultor familiar orientações diversas sobre como alinhar a produção com a preservação ambiental. Investimos na criação de materiais de divulgação, além de parcerias com diversos órgãos para levar essas orientações ao máximo de agricultores possível. Sempre tivemos uma atenção especial de ir até o campo conversar com nossos agricultores, informá-los sobre direitos e deveres, e esse trabalho de campo nos permite fazer um diálogo acerca de sustentabilidade ambiental também.
O que fazer para manter os jovens na área rural?
Investir em educação no campo! Não podemos permitir que nossos jovens deixem suas propriedades rumo às cidades em busca de emprego e estudo. É necessário investir na manutenção das escolas no campo, além disso investir na criação de financiamento próprio para a juventude trabalhadora rural empreender em suas próprias propriedades. O campo está envelhecido, temos que dar oportunidade de inovação e qualificação aos nossos jovens, criando as condições necessárias para empreender e investir em suas propriedades, com políticas públicas específicas para a juventude. O acesso ao financiamento produtivo, a inovação, tecnologia e educação são o caminho para manter nossos jovens no campo.
O que pode ser feito para minimizar os problemas causados por estresses climáticos, para o produtor familiar?
É necessário ampliar os investimentos em tecnologia e inovação no campo, e investir em infraestrutura para que realmente tenhamos uma melhor preparação de enfrentamento às adversidades climáticas. Temos sofrido muito com as fortes chuvas ultimamente, mas, podemos sim diminuir os impactos dessas chuvas na produção agrícola, com informação aos nossos agricultores e infraestrutura adequadas em nossas propriedades.




























































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