Com a presença da variante inglesa no Espírito Santo, revelada na tarde de segunda -feira (22), por um estudo do Laboratório central do Estado, ( Lacen/ES), especialistas recomendam que o momento continua exigindo ainda mais adesão ao isolamento e distanciamento social, além da necessidade de se apressar a disponibilidade e o alcance das vacinas contra a covid-19.
“Essa presença das variantes entre nós é uma junção de uma negligência de parte da população, que não deu o devido valor às regras de isolamento para barrar a transmissão do vírus, bem como a falta de zelo do governo Federal, que, até agora, não encara com seriedade a situação da pandemia no país e não se mobiliza”, sintetiza a microbiologista, virologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Liliana Cruz Spano.
Ela acredita que as cepas do coronavírus, muito mais transmissíveis e com alto poder infectante, podem estar por trás do crescente número de casos, resultando em mais pacientes em situação crítica e um aumento na ocupação de leitos.
“Estamos vivendo hoje o reflexo do que foi feito 14 dias atrás. Junte ao tanto de aglomerações que foram feitas e mais essas mutações agindo, com alta carga viral, você tem, infelizmente, uma situação perfeita para um agravamento maior”, lamenta.
O painel de ocupação de leitos de UTI no Espírito Santo, atualizado pela Secretária de Estado da Saúde ultrapassou 93% nesta segunda (22), fazendo que os hospitais não tenham mais o serviço especializado para o tratamento de qualquer doença.
Isolamento social
A microbiologista defende que só adesão ampla ao isolamento irá reverter o quadro de ocupação de leitos. “Os 14 dias da quarentena pedido pelo governo do Estado é mais período de observância para identificar se o isolamento, nessas condições, precisará ser reforçado, e se teremos um desafogar no sistema de saúde. Pode ser que medidas fiquem mais rígidas e a duração do fechamento se prolongue. Tudo dependerá do que vamos fazer até 31 de março”, reforça.
A epidemiologista e professora da Ufes, Ethel Maciel, avalia que o Espírito Santo está num período muito crítico, um dos piores desde o início da pandemia. “Temos a variante do Reino Unido, a chamada B117 e a P1 de Manaus. A do Reino Unido é mais transmissível, causa mais doenças e isso justificaria esse colapso e esse aumento que estamos vendo na procura por serviços de saúde. Já a variante de Manaus, além de transmissível, tem a grande capacidade de escapar ao sistema imunológico. Isso pode resultar numa eficácia menor nas vacinas disponíveis”, compara.
Suspensão das atividades e vacinação
Ethel cita um estudo feito pelo Instituto Butantan, que analisa a eficácia dos imunizantes frente à cepa do Amazonas. Mas, com poucas amostras, ainda não há uma confirmação científica. Por ora, Ethel recomenda que a população respeite o decreto estadual de fechamento e suspensão das atividades.
“O decreto do Estado é importante em diminuir a circulação das pessoas. Ao mesmo tempo, precisamos aumentar a oferta de vacinação para que a gente consiga diminuir a transmissão dessas variantes nesse momento aqui no Espírito Santo”, defende, citando que 40% das internações por coronavírus, no momento, são de pessoas com idade inferior a 60 anos. “Pode ser um reflexo da atuação dessas variantes”, aponta.
Disponibilidade de Leitos
As regras dos 14 dias do Estado, na análise do imunologista, professor e pesquisador da Ufes, Daniel Oliveira Gomes, não estão ligadas à presença das variantes. “Estão mais relacionadas à questão da disponibilidade dos leitos de UTI e como uma forma de desafogar o sistema de saúde, que está próximo do limite, do que simplesmente de termos essa variante. Poderia ser essa, poderia ser a de Manaus. Se nós tivéssemos os mesmos índices de ocupação de leitos como estamos tendo hoje, o governo adotaria as mesmas medidas de qualquer modo”, argumenta.
A variante inglesa, segundo Gomes, causa preocupação. “Ela apresenta uma mutação, que é chamada de N501, e está relacionada àquela proteína de entrada do vírus na célula. Por causa dessa mutação, o vírus criou uma afinidade maior às células humanas. Ele consegue interagir com muito mais força nessas células e infectar uma quantidade de pessoas, com 70% mais eficácia do que vírus que não apresenta a mutação. Com um vírus dessas características, mais pessoas serão infectadas, mais gente desenvolve a doença, mais gente evolui para casos clínicos graves e, obviamente, temos mais mortes”, descreve.
A imunização, de acordo com o professor, é a única solução viável para barrar essas mutações. Mas o Brasil, que já foi referência em logística de campanha nacional de imunização, ainda patina e fica para trás de outros países quando se trata de vacinação contra a covid-19.
“Até agora, a gente não vacinou 3% da população brasileira, considerando as duas doses. Então, é um número muito baixo. Impacta numa extensão do tempo para a gente atingir aqueles 70% da população vacinada que estaria ligada à imunidade de rebanho, à imunidade populacional. Quanto mais tempo a gente demorar, mais possibilidade a gente ter vírus com outras mutações”, alerta.





























































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