
Escritor das barrancas do lendário rio que o gentio chamou de Kiri-Kerê
Quando os primeiros raios de sol desvirginavam aquela manhã de névoa espessa, de um distante janeiro de 1955, o último passageiro chegava apressado para embarcar no vagão parado na plataforma da Estação Leopoldina Railway, já com a Locomotiva Baldwin, que parecia aguardá-lo, bafejando uma densa fumaça entremeada de vapor, enquanto um apito renitente anunciava a sua partida da enigmática e bucólica Cachoeiro de Itapemirim, ao Sul do Estado do Espírito Santo, com destino à bela capital dos capixabas.
Ao se acomodar em um dos escuros acentos de madeira, escolheu ficar próximo à janela e abaixou a guilhotina em função do vento frio que soprava uma aragem úmida e, embora estivesse bem agasalhado, seguia as recomendações maternas para se manter protegido, quando, após os primeiros solavancos, as fachadas das casas começaram a passar rapidamente em frente a seus olhos que avistavam algumas luzes opacas que ainda permaneciam acesas nos alpendres.
Em poucos instantes, a paisagem urbana se modificava com a movimentação frenética e barulhenta da “Maria Fumaça”, que começava a pegar velocidade, e surgiam as paradisíacas paisagens do vale do Itapemirim, ao tempo em que ficavam para trás as montanhas do Itabirito e do Frade e a Freira, informando que a sensação térmica diminuía, e, subitamente, lhe veio uma estranha fumigação na garganta, seguida de uma incontida vontade de tossir, e retirou do bolso do paletó um pequeno e engomado lenço como a alvura do leite.
Pela primeira vez, ele sentiu um ligeiro volume de saliva sendo expelido de sua boca e o recolheu com suavidade, depois dobrou e guardou o lenço sem demonstrar motivo de preocupação e ou observar com mais atenção o que havia expelido, mas, em seguida, sentiu um novo incômodo e, desta feita, com maior intensidade, pegou, novamente, o lenço de algodão, levou-o à boca, tossiu três vezes seguidas e ainda pigarreou.
Agora, resolveu olhar o lenço e viu uma pequena mancha de sangue ao centro e alguns respingos em seu entorno, o que o deixou preocupado, enquanto os demais passageiros se espalhavam pelo vagão e ele tentava recostar a cabeça no parapeito da janela, o que sentia desconfortável, devido ao balanço lateral do vagão em cadência com o atrito das rodas nos trilhos que ainda repetiam os intermináveis baques, provocando um insistente barulho.
No sanatório, soube do diagnóstico de tuberculose e teria que ser imediatamente internado para iniciar o tratamento, não poderia retornar e, durante seis meses em que ficou na Ilha da Pólvora, de vez em quando retirava da mala de couro os acetatos nos quais “sonhava gravar a sua voz para ecoar em toda Cachoeiro”, mas o médico o havia proibido de cantar, e, generoso, ao retornar à cidade, presenteou ao garoto-cantor aquele acetato, pois ele estava impedido de usá-lo.
E, como o seu estado de saúde voltou a piorar, todos tomaram conhecimento da gravidade e das dificuldades de um tratamento prolongado que deveria ser em uma local especializado, tendo início uma grande mobilização popular, objetivando lhe oferecer as melhores condições de recuperação, ao tempo em que o seu isolamento era uma necessidade urgente naquilo que se tornara uma tragédia que havia vitimado o mais promissor nome musical da cidade, e ele voltou a Vitória, de onde não mais sairia em vida.
Em clima de consternação, Cachoeiro de Itapemirim foi à Estação Leopoldina se despedir de seu promissor cantor, agora em uma madrugada ainda mais fria de inverno, ao tempo em que se marcou a gravação da primeira música do menino-cantor, denominada Deusa, de autoria do jornalista Joel Pinto, em um estúdio improvisado na Rádio Marconi, atrás do Hotel Toledo, atualmente Banco do Brasil, e que contou com a participação do Regional L-9, formado por José Nogueira (violão), Mozart Cerqueira (violão), Valdir de Oliveira (acordeon), Ângelo dos Santos (cavaquinho), Moacir Borges (contrabaixo) e os ritmistas Hamilton Silva, Zuzu e Carlos César, da composição original, embora ocorressem algumas mudanças ocasionais.

Assim, o garoto-cantor Roberto Carlos, no esplendor de seus 14 anos, realizava a sua primeira gravação em um acetato de alumínio na Máquina Gravadora Elmo, como um prenúncio de que poderia superar o trauma da cidade, e cantou o samba-canção: Deusa, / Terna expressão de um louco anseio, / Sonho que eu busco em devaneio, / Como quem busca uma ilusão. Anjo do céu / Que passa pela vida, / Pobre andorinha perdida, / Sem ninho e proteção. Deusa da terra, / Por quem eu vivo atormentado, / Sonho de amor passado, / Ouça os lamentos meus. Deusa, / Que Deus me veja neste mundo, / Para que eu tenha um segundo / Da luz dos olhos teus.

Mas, nos primeiros dias de agosto de 1955, as notícias vindas da capital anunciavam o agravamento do estado de saúde do jovem cantor Genaro Ribeiro, como se uma imensurável tragédia se abatesse sobre a cidade de Cachoeiro de Itapemirim, a Rádio ZYL-9, que já pertencia ao empresário Idalécio Carone e que iniciou um show no auditório, no dia 12, com o objetivo de arrecadar recursos financeiros para custear as despesas médicas, e todo o elenco da emissora foi escalado, além de outros artistas como o cantor Ricardo Assunção, a cantora Marlene Pereira e a pianista Elaine Manhães.
Não obstante o enorme esforço dos artistas e da população da “Capítal Secreta do Mundo” para salvar a vida de seu mais promissor talento musical, treze dias após, em 25 de agosto de 1955, o jovem cantor Genaro Ribeiro não resistiu à tuberculose e beijou a face da eternidade, mas o destino havia possibilitado que outro talento da terra colocasse sua voz no ar, por meio de um rudimentar acetato, que, agora, invadia as casas, as ruas, as praças e os sentimentos e corações dos cachoeirenses, anunciando o surgimento de uma nova estrela, que logo se transformaria na maior de todos os astros da constelação da Música Popular Brasileira.
Então, a voz do garoto-cantor, que havia gravado sua primeira música — com o sugestivo e emblemático título de Deusa —, passou a ser ouvida na Rádio ZYL-9, já fazia sucesso nos shows realizados nos municípios vizinhos de Muqui, Alegre e Mimoso do Sul, sob a responsabilidade de Zé Nogueira, e tinha amenizado uma imensurável tragédia e compareceu ao show beneficente interpretando o samba-canção “Olinda, cidade eterna”, do compositor pernambucano Capiba, sem saber que aquela também seria uma de suas últimas apresentações em Cachoeiro de Itapemirim, pois, em janeiro de 1956, antes de completar 15 anos, ele foi viver na casa de uma tia, em Niterói, no Rio de Janeiro.
Depois que deixou a cidade natal, sua voz suave e enternecedora ecoava pela “Capital Secreta do Mundo”, através da gravação no acetato — que depois lhe foi presenteado por Zé Nogueira —, mas ele já não era mais o garoto-cantor, mas o cantor Roberto Carlos, que buscava espaço no cenário musical da Cidade Maravilhosa, e, convicto de que o destino lhe reservava um enorme horizonte, disse que “não tinha gostado de ouvir a sua voz gravada”, como uma obstinação dos seres predestinados que buscam qualidade, eficiência e perfeição, e, com extraordinário talento, logo se consagrou “Rei da Jovem Guarda” e, em seguida, ganhou o Festival de San Remo, na Itália, e se converteu em um dos maiores cantores românticos da música universal.
Assim, em decorrência de uma comovedora e dolorida tragédia que abalou a “Capital Secreta do Mundo”, ao Sul de um Estado que se esconde no quase anonimato do país, deu-se o início de um imensurável reinado que se alastrou pelo país, conquistou milhares de fãs e admiradores ao redor do mundo, demarcando um inimaginável território repleto de “tantas emoções” que continuam fazendo de Roberto Carlos um soberano e inigualável Rei, que há mais de sessenta anos faz as suas maviosas canções se transformar em fundo musical de nossas vidas.
Contato: macieldeaguiar@yahoo.com.br
(27) 999881257





























































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